sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

RESENHA: "O RETRATO DE DORIAN GRAY", DE OSCAR WILDE E O REFLEXO EM UM COTIDIANO






Em uma tarde de domingo, ele acordou e me olhou como se fosse um objeto estranho a seu lado. Ontem ele dormiu mais cedo. Acredito que para não ter que ficar do meu lado mais, tempo que se desdobra. O que senti? Sinto-me meio que letárgica. Já não sinto mais?!
Hoje cedo, ele continuou dormindo até mais tarde, ainda na perspectiva de remir o tempo para não me ver. Fico intrigada e vou olhar o meu rosto no espelho para entender tal repúdio. Fico vendo meu rosto no espelho. Fico vendo meu rosto no espelho e demoro, demoro a reconhecer que sou eu. E vejo: ele mudou. Ele percebeu também e isto é demais para ele. Ou será que estou percebendo o que ele quer que perceba. O espelho é meu, mas o inferno que define o que deve ser visto é ele. Ele tem este poder sobre minha alma. Espelho espelho meu, quem é mais belo do que eu? O espelho responde: “As palavras dele”. Deveria demorar seu coração. Retomar minha beleza e juventude de volta, mas não consigo. Não quero, não posso, porque dependo dele. Diante disto, há tanta dor, tanta tristeza, tenho vivido estes últimos dias que se converteram em ano ou são anos consecutivos em dias... e isto reflete em nosso corpo?!
Ele fala que ando curvada e reclama de minha postura. Durante tantos anos tenho me abaixado, curvando-me diante dele e de suas vontades. O tempo foi implacável em muito pouco tempo comigo. Já não me reconheço mais. Estou feia sim. A pele mal cuidada. O tratamento dentário interrompido está desenvolvendo um abismo no meio de meu rosto. Antes, tão jovem, forte e agora sensível. Junta isto com o meu lado ogra exterior de perna cabeluda forçada: se ao menos eu fosse adepta do movimento feminista, teria até orgulho disto, mas fiz de tudo para economizar e crescer, mas acho que a vida é uma tristeza sem fim, onde os sonhos são abismos que criamos no nosso interior para correr nossa alma. Como escreveu mais ou menos aquela poeta que se suicidou, a poeta que se suicidou: as mulheres e as crianças são as últimas a desistirem de atracarem seus navios no ar. O amor da humanidade é uma mentira, o poeta avisou. Todavia, não quero acreditar. Ainda atraco o amor no ar?!!!
Algumas mulheres são de Marte, outras são de Vênus. Eu decidi ser da primeira opção, que na verdade é mártir na vida de quem deseja uma mulher de Vênus. Uma cabeça oca que só faz as zonas baixas se elevarem. As mulheres mais racionais veem o futuro, mas os homens querem ver o presente resolvido de acordo com suas necessidades.
Estava lendo até agora o livro “O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. E veja só que ironia, justamente neste momento em que me sinto tão triste e decepcionada com o lado macho da existência. Deparo-me com um cara, o próprio Dorian que é um pilantra de galocha. Olha que infeliz das costas ocas. Representa os infelizes desta categoria. O bicho besta Dorian vai a um teatro de segunda, encontra uma atriz interpretando algumas peças de Shakespeare e se apaixona pela genialidade de uma atriz que se distingue da desagradável arte de terceira contida naquele lugar. Ele diz que ela era como uma flor de lótus sobre a lama. Destacando-se dos demais personagens atores. Dorian se apaixona e decide ir ao encontro de seus companheiros: o pintor Basil e o pilantra desagradável do Lord Henry. Ao encontra-los dá a notícia que pedira a jovem em casamento e os convidou para ver a sua amável, linda e extraordinária atriz se apresentar. 
Que contradição, quando eles vão, justamente naquele dia, a jovem é um fiasco. E o que acontece? Quando os amigos se deparam com a ordinária atriz, saem à francesa e Dorian vai ter com Sibyl Vane. Sibyl declara que antes, atuar era tudo para sua vida, mas depois que Dorian declarou seu amor, o teatro perdeu a importância. Ela atuou de forma vulgar, porque queria declarar que Dorian era mais importante, todavia, o Dorian disse que queria ela sendo a atriz genial e não a mulher que ama. A mulher que o ama.  


Dorian volta para sua casa, em um momento olha seu retrato no espelho e vê uma mudança no rosto bem desenhado. Lembra-se de ter deixado Sibyl prostrada no chão, em busca de agarrar seus pés, coração e alma, chorando para que ele não a deixasse. Ele lembra bem de achá-la patética... Patética?! Patética?! Todavia, nada se compara com o horror que aparece no quadro, mesmo que sua beleza continue intocável ao conferir a si mesmo no espelho. No outro dia, depois de se deparar com o horror no espelho, não importava, porque a aparência continuava bela. Quanto a Sybil Vane?

A adorável Sibyl
Que fez do amor
Peça mais gentil
Acabou o amor
Sendo seu covil
Matou sua dor
Saindo do mundo vil.

                Maldito seja Dorian. Maldito seja quem faz da existência o navio de egoísmo. Que tem como mentores o espírito de Lord Henry e o caráter do hedonismo e do prazer como Norte. Que o farol apague, que as estrelas sejam cobertas pelas trevas que sobem de seus negros corações. Que a tempestade das lágrimas sibylantes atormente seus mares interiores. Maldito seja o espírito que faz as fortes e belas Sibyls se entregarem a pessoas superficiais. 


O Lord Henry diz que o casamento é uma regressão no caminho do conhecimento, porque torna os homens altruístas, como se fosse o altruísmo o mal do universo. As pessoas buscam seu prazer individual quando as coisas só tem sentido quanto estamos em conjunto.  
A beleza atrai e deve ser difícil ver a degradação da mesma. Deve ser terrível conviver com a doença, o horror e a velhice, porque lembramos quem somos ou quem seremos. Caso a morte não nos livre de tão fado. Odeio a superficialidade que a beleza faz as pessoas sentirem, porque ela é um engodo da vida. Dorian mantém sua aparência e esconde o horror de sua alma expressa no quatro em um quarto fechado. Não tenho dúvidas de que a vida é terrível e bela. Duas facetas que o homem conhece e escolhe. A beleza é estética, mas é mais relacionada ao espírito. Envelhecer não é o problema, porque isto é a naturalidade da existência. O problema é fazer de nossa existência um mero caminho de Mesalina, Calígula ou Nero. Um caminho de egoísmo e morte. Um caminho de trevas e solidão.
Qual beleza é indispensável? A estética que Dorian mantém para o exterior com seu pacto macabro? Ou a beleza de uma velhice sábia que poderia ter sido mantida em seu ser enquanto o quadro seria só um quadro? Oscar Wilde acreditava que a arte deveria existir somente por ser arte. Arte pela arte. Contudo, seu livro evoca nos leitores caminhos que devem ser refletidos antes de seguidos.



sexta-feira, 11 de março de 2016

RESENHA DE "O DUPLO", DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

In memorian do herói Golyádkin


"O Duplo" é o segundo romance publicado por Fiódor Dostoiévski, no ano de 1846. O romance é narrado em terceira pessoa, mas o narrador, apesar de ter um cunho psicológico, só se detém na figura do Yákov Pietrovitch Golyádkin: a quem dá o epíteto de herói. O romance se passa na casa do herói, na repartição em que trabalha, em algumas tabernas e na casa do chefe da repartição. Até chegar ao destino menos desejado, mas obviamente esperado pelo leitor.

Em uma manhã qualquer, às 8:00, Y. P. Golyádkin acorda e levanta, "[...] Aliás, ficou uns dois minutos deitado em sua cama, imóvel, como alguém que ainda não sabe direito se acordou ou continua dormindo" (p.9), e chama seu servo para preparar sua roupa que fora adquirida recentemente. Em seguida, pede para seu criado chamar uma charrete. Quando parte para seu primeiro compromisso - que é uma consulta médica - um colega de trabalho reconhece nosso herói e fala com ele admirado, todavia o nosso herói o ignora. 

Ao chegar no consultório do médico Crestian Ivánovitch, conversa de forma inteligível: gaguejando, confuso e afetado ao defender sua honra e dignidade. O médico receita, para o bem de sua enfermidade, a convivência social, porém nosso herói afirma: 

"- Eu, Crestian Ivánovitch - continuou o senhor Golyádkin no mesmo tom anterior, um pouco irritado e preocupado com a extrema insistência de Crestian Ivánovitch -, eu, Crestian Ivánovitch, gosto da tranquilidade e não do burburinho da alta sociedade. Lá entre eles, digo, na alta sociedade, Crestian Ivánovitch, é necessário saber fazer rapapés (nisso o senhor Golyádkin roçou com o pé), lá se cobra isso, e também se cobram trocadilhos... capacidade de fazer elogios inebriantes... é isso que lá se cobra, mas isto não aprendi Crestian Ivánovitch, não aprendi esses artifícios; faltou-me tempo" (p. 23).

Nosso herói não sabe falar direito e se percebe isto no diálogo com o médico Crestian Ivánovitch que o observa de forma admirada e curiosa. Golyádkin defende a sua magnitude de caráter e se comparando com seus colegas de trabalho que na visão dele são inimigos, tramadores de intrigas em virtude de uma inveja constante que nutrem pelo mesmo. Ao conversar com o médico, ele afirma não saber lidar com fofocas e manipulações, mas ao mesmo tempo que tenta se distinguir, não tem como falar de si como diferente sem expôr os supostos inimigos, ou seja, fazer fofocas confundindo o leitor sobre seu caráter verídico. E isto fica mais acentuado quando ele desse do consultório, pois diante da sua encenação ou realismo perante o médico, o narrador expressa os pensamentos do nosso herói:

"'Esse doutor é um tolo - pensou o senhor Golyádkin, encafuando-se na carruagem-, um pateta. Talvez até trate bem seus doentes, mas mesmo assim... é uma toupeira'. O senhor Golyádkin acomodou-se, e Pietruchka gritou: 'Vamos lá' - e a carruagem voltou a rodar pela avenida".

Partindo deste momento da narrativa, a história se desdobra como a personagem, nos deixando confusos e intrigados pelas intrigas verídicas ou fictícias do herói Golyádkin.

O herói passa a manhã fazendo compras, depois que saiu do médico. Em seguida, vai a um restaurante que nunca havia ousado entrar. Com esta atitude, demostra-se estar fugindo dos hábitos antigos. Neste lugar, encontra dois colegas de repartição que ficam admirados ao vê-lo no ambiente. O colegas expressam a admiração ao herói que rebate as palavras dizendo:

" - O senhores todos me conhecem, mas até agora só conhecem um lado meu. Neste caso não cabe censurar ninguém, e confesso que eu mesmo tenho uma parte da dupla" (p. 37).

Os colegas de trabalho ficam perplexos, mas os funcionários do restaurante riem da figura do herói, mas o mesmo os rebate de forma ríspida:

"- Riam, senhores, riam por enquanto. Vivam, e verão - disse ele com sentimento de dignidade, pegando o chapéu e rumando para a porta. - Porém vou dizer mais, senhores, acrescentou, dirigindo-se pela última vez aos senhores registradores -, vou dizer mais; ambos estão aqui olho no olho comigo. Eis, senhores, minhas regras: se fracasso, não desanimo; se atingido o objetivo, sigo firme, e seja como for nunca armo tramas. Não sou de intrigas e disto me orgulho. Não serviria para diplomata. Dizem ainda, senhores, que a própria ave voa à procura do caçador. É verdade, e estou propenso a aceitar: mas quem aqui é caçador? Isto ainda é uma questão. (...) despediu-se dos senhores funcionários com um sinal de cabeça e saiu, deixando-os extremamente perplexos (p. 38-39). 

Vê-se que Golyádkin provoca uma admiração por fugir de sua vida diária. O que se percebe é que era um homem simples, de vida nas sombras da indigência, indo de sua casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem participar de ambientes sociais mais elevados. Não sabendo se comportar de forma politicamente correta, torna-se alvo de riso, mas o interessante é que os funcionários só riem da figura de Golyádkin quando este lhes dá o dinheiro. Isto é algo a se pensar, mas de tão óbvio ninguém nem perde tempo: só valemos o dinheiro que temos, os amigos ricos ou famosos que demostramos ter e a aparente capacidade de enganar os outros é que mostra o valor. A todo momento Golyádkin tenta fazer o novo ambiente social observar seus valores preciosos de dignidade que ele valoriza, mas por isto é alvo de ridicularização. Logo após esta pequena saga diária incomum, o herói segue para seu destino tão planejado. Ele espera por um grande momento: a hora da festa da Clara Olsúfievna. Quando chega na casa, logo de início, o criado afirma que o herói não fora convidado, mas o mesmo afirma que fora convidado. Quando o Senhor Golyádkin se sente ultrajado e tenta entrar, um de seus colegas que encontrara tempos antes, impede sua entrada, foçando-o a descer para que não importune o dono da casa que é o chefe de ambos.

Golyádkin fica decepcionado, anda sem rumo pelas ruas até chegar em uma taverna e depois de tomar umas e outras, volta até a casa de seu chefe para reivindicar seu suposto convite. Fica na espreita no fundo da casa até conseguir uma brecha e entrar pela cozinha. Enquanto nosso herói perambula desorientado, o narrador descreve no capítulo IV a festa de aniversário e toda pomba da casa de Clara Olsúfievna. Todavia, não se detém na descrição deste ambiente, mesmo com toda riqueza deste lugar ele prefere a riqueza do herói. O narrador nos leva, como um anjo guardador ou observador, até o senhor Golyádkin. Para justificar esta ação, o narrador afirma:

"Para tudo isso, como já tive a honra de vos explicar, oh leitores! Falta-me pena, e por esta razão me calo. É melhor nos voltarmos para o senhor Golyádkin, o único, o verdadeiro herói da nossa mui verídica história" (p. 50).

O fato é que o narrador nos leva para o pobre e desolado herói fracassado que toma uma atitude: decidi penetrar na festa. Nosso herói ficou no fundo da casa e quando os empregados deram um vacilo, ele entrou e ficou fascinado pelo ambiente. Alguns se incomodaram rapidamente ao perceber a figura que entrara, mas fizeram o papel da boa e falsa conduta social educada e fingiram não percebê-lo. Golyadkin, meio atrapalhado, pisou no vestido de uma, empurrou outro e enfeitiçado pela beleza de Clara vai até ela. Quando se inclina para lhe saudar, pegar-lhe a mão e a convida para dançar, acaba se atrapalhando e assusta a jovem:

"Clara Olsúfievna soltou um grito; todos se lançaram a fim de soltar sua mão da mão do senhor Golyádkin, e num instante a multidão afastou à força nosso herói a quase dez metros de distância" (p. 60)

Depois de ser expulso da festa, Golyádkin volta para casa desconsolado. O fato é que aquele fato desencadeou em nosso herói um acontecimento ímpar no interior ou exterior que acabou levando o herói rumo a hybris social. O senhor Golyádkin viu uma figura parecida consigo em vários momentos na volta para casa. Quando chegou em sua rua, lá estava a figura. Quando chegou na porta de seu apartamento, lá estava a figura e quando pegou a vê-la e adentrou ao seu quarto:

"[...] O desconhecido estava sentado à sua frente, também de capote e chapéu, em sua própria cama, com um leve sorriso nos lábios e, apertando um pouco os olhos, fazia- lhe um amistoso aceno de cabeça. O senhor Golyádkin quis gritar, mas não pôde, quis protestar de algum modo, mas não teve forças. Ficou de cabelos arrepiados e sentou-se, desfalecido de pavor. Aliás, havia razão para isso. O senhor Golyádkin reconhecia por completo seu amigo noturno. O amigo noturno não era senão ele mesmo - o próprio senhor Golyádkin, outro senhor Golyádkin, mas absolutamente igual a ele - era, em suma, aquilo que se chama de o seu duplo, em todos os sentidos..." (p. 74).



O que pensar com a existência do duplo: será uma criação da personagem principal? Será um parente próximo e muito parecido do senhor Golyádkin, ou será que do próprio interior do inconsciente de Golyádkin saiu seu duplo para fazer companhia ao pobre e desprezado homem. A todo momento, o leitor ficará confuso sobre o Golyádkin segundo que de início se torna amigo do primeiro Golyádkin, mas logo em seguida procura o trabalho e assumir a vida do primeiro. Tudo que o senhor Golyádkin primeiro não conseguia fazer, o seu duplo, seu gêmeo ou seu parente próximo fazia com maestria, inclusive agir com vilania. Se tornou popular, adquiriu amigos, era convidado para conversas com os colegas, enquanto o nosso herói se afundava em tristezas e infâmias de um que queria seu emprego e de outros que se incomodavam com a simples existência dele. 

A história é angustiante em vários momentos, pois como leitora me senti uma Golyádkin e isto, segundo o comentário de Paulo Bezerra é bom, porque o próprio Fiódor Dostoiévski tinha uma simpatia por pessoas que não fugiam de suas intrigas interiores, mas ao contrário, buscavam fugir das convenções sociais para entender a si mesmo e ao mundo. O próprio escritor tinha epilepsia e era de certa forma meio Golyádkin também. Não é à toa que Sigmund Freud se interessou tanto pelas obras de F. Dostoiévski, pois neste livro podemos ver expresso a teoria do Id, Ego e Superego do pai da psicanálise e do consciente e inconsciente. 

De forma superficial, podemos dizer que S. Freud dividia o interior da mente humana em consciente e inconsciente. No inconsciente se encontra nossos desejos e instintos mais sombrios e mais essenciais para existência como: pulsão de vida e morte, libido que é o desejo que nos impele a luta e conquista.Todavia o consciente nos faz frear nossos desejos, para que não aconteça uma hybris inconsciente que provoque um caos entre os indivíduos na sociedade. Neste jogo, estão em destaque as palavras: Id que se encontra do turbilhão do inconsciente que expressa bem estas pulsões tão perturbadores do inconsciente. O Ego que é mais voltado para o consciente e busca conseguir sempre equilibrar as vontades do Id em relação ao Superego. Por último, o Superego são as "castrações sociais" que nos fazem agir de forma "normal"para não haver um caos existencial coletivo que levaria a uma animalidade: dramático isto?

Observando o senhor Golyádkin, percebemos um homem impelido pelo seu Id a realizar seus desejos, começando por se dar ao direito de dançar com a bela Clara e fazer parte de seu "clube social", mas ele em si só é incapaz por não ser rico, bem afeiçoado as boas palavras e ter uma aparência agradável. Isto é provado até pelo significado de seu nome, pois de acordo com uma nota de rodapé: "O sobrenome Golyádkin deriva de golyadá, golyadka, que significa pobre, indigente,  mendigo, miserável" (p. 53).

Após a rejeição social pela sua condição de pobreza, aparece um outro Golyádkin que é totalmente diferente do primeiro e deveras sede ao Id deixando o Golyádkin primeiro como responsável por suas ações, pois as pessoas não distinguem um do outro, ou se um se fundiu no outro e ambos se rebelaram contra o Superego da sociedade hipócrita que não valorizava os valores que Golyádkin primeiro tando valorizava, mas não valiam nada sem que o mesmo possuísse dinheiro. 

O duplo do Golyádkin, nosso herói, pode ser uma resposta vingativa à sociedade da época e pode ser tomado agora. O Ego do senhor Golyádkin fora destroçado pela sociedade, pela sua própria condição social a priori e por si mesmo no fim das contas. O fim da história acontece com o estopim que fez surgir o duplo. Algo de terrível acontece com nosso herói, mas deixo para vocês descobrirem ao ler este livro magnífico. Só quis pincelar em tintas negras e, em alguns momentos, usei tinta de luz em meio a escuridão para pintar o quadro da vida não valorizada do herói Golyádkin em meio a sociedade que vivia. Brindemos com água de esgoto aos Golyádkins da vida, porque a sociedade bem aventurada jamais compartilhará seus deliciosos vinhos e champanhes. 

Depois de um acontecimento, eis que só fica com nosso herói o seu duplo. Como um escorpião encurralado pelo fogo fomentado pela sociedade traiçoeira, o nosso herói perde o controle e acaba trazendo seu duplo como um ferrão venenoso para sua libertação:

"Quem mais tempo continuou atrás foi o vil gêmeo do senhor Golyádkin. Com as mãos enfiadas no bolsos laterais das calças verdes de seu uniforme, ele corria com ar satisfeito, saltitando ora de um lado, ora do outro da carruagem; vez por outra agarrava-se à moldura da janela e pendurando-se nela, enfiava a cabeça e mandava umas beijocas de despedida para o senhor Golyádkin; mas até ele começou a cansar, sua imagem foi rareando mais e mais e por fim desapareceu de todo (p. 232).






Opções de capas da editora 34 do livro "O Duplo" de Fiódor Dostoiévski




DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Duplo.Tradução de Paulo Bezerra; desenhos de Alfred Kubin de Samuel Tian Jr. São Paulo: Editora 34, 2013. (2º edição). 256 p. (Coleção Leste).


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

RESENHA DO LIVRO "RESSURREIÇÃO", DE MACHADO DE ASSIS

Félix: o Otelo brasileiro


O livro "Ressurreição" é o primeiro romance publicado de Machado de Assis. Ele é narrado em terceira pessoa, em que o narrador é, de certa forma, onisciente, porque apreende e expõe ao leitor o que se passa na cabeça das personagens. O narrador deste romance já aponta para o grande estilo de narrar que podemos observar em romances como "Dom Casmurro" e outros grandes romances de Machado.

As personagens principais são: Félix, um ex-médico que recebera uma herança e desde então vive os prazeres da vida burguesa. Logo em seguida, no romance, aparece a personagem Viana que anunciará a chegada da segunda personagem principal: a viúva Lívia. O encontro de Lívia e Félix acontece na casa do Coronel e D. Matilde que tem uma filha chamada Rachel que era uma jovem apaixonada por Félix. Félix também tem um grande amigo Meneses que tem por característica o romantismo e, também, há o antagonista L. Batista que mesmo casado, flerta com Lívia, mas é desprezado pela mesma.

No início, Félix se mostra inflexível ao amor, tanto que seu amigo Meneses chega meio que desesperado, com medo de estar sendo traído pela sua amante, então entra em um diálogo com Félix e, por meio deste diálogo, podemos conhecer um pouco do Félix. Segue a citação:

Dou-te enfim um conselho, disse Félix.
Meneses levantou os olhos com ansiedade.
- Qualquer que seja a resolução que tomares, continuou Félix, não recues um passo.
- Onde acharei esta resolução?
- Aqui, disse Félix pondo-lhe o dedo na testa.
-Oh! Não! suspirou Meneses; a cabeça nada tem com isto, todo mal está no coração.
- Recorre á cirurgia: corta o mal pela raiz.
- Como?
- Suprime o coração. (MACHADO, 2008, p. 40).

Esta percepção do amor na mente de Félix muda drasticamente depois do baile de valsa na casa do Coronel, onde ele percebe o flerte do Batista, mas mesmo assim resolve se aproximar de Lívia e ambos recordam de encontros anteriores. Lívia tinha intenção de viajar, pois gostava muito de passear pela Europa, mas ao ouvir Félix dizer que a amava, ela desiste da viagem.

O romance tinha tudo para ser perfeito. Os dois vivem dias românticos em suas chácaras, mas percebendo o namoro entre os casais, L. Batista resolve se vingar por ter sido rejeitado, então percebe um grande defeito em Félix: "o veneno do ciúme". Então o Batista simula olhares, põe dúvidas sobre a honestidade e integridade da viúva Lívia e, por isto, o romance começa a ficar meio atribulado, com idas e voltas. Félix, às vezes, percebe sua loucura em ver monstro no que na verdade são moinhos de vento. Depois de muitas aflições e dúvidas, a jovem Rachel escreve uma carta sobre a honestidade da Lívia e, após isto, Félix resolve casar. Todavia, antes que o casamento aconteça, Batista faz uma manobra para acabar com o romance. Ele envia anonimamente uma carta para Félix que dizia:

"Mísero moço! És amado como era o outro; serás humilhado como ele. No fim de alguns meses terás um Cirineu para te ajudar a carregar a cruz, como teve o outro, por cuja razão se foi desta para a melhor. Se ainda é tempo, recua!" (MACHADO, 2008, p. 122).

Depois desta carta, o fraco do Félix termina de forma abrupta e sem explicação a cerimônia de casamento. Lívia fica muito doente. Este fato só fica esclarecido devido a intervenção de Meneses que mesmo amando Lívia, queria ser justo e também Raquel pediu ao mesmo que buscasse a verdade para ajudar a pobre viúva. Para saber se o casal reata, será necessário ler o livro, mas posso dizer que Raquel e Meneses mostraram ter um caráter similar em justiça, casaram-se e foram muito felizes. 

"O amor é fogo que arde sem se ver", como bem disse Camões... e quando ele não é cultivado em um coração de boa índole, será a tesoura de jardineiro que cortará a rosa. Pois, o que a pessoa é capaz de fazer aos outros, irá projetar no outro que ama. O amor, de centelha anímica, virará uma saraiva que consumirá a ambos e feliz o que percebe logo e foge dos amores mortais passionais. 


Cena de uma peça de W. Shakespeare, chamada "Otelo de Veneza", em que enganado por Iago, a personagem principal mata injustamente sua amada Desdemona. 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

RESENHA: "GENTE POBRE", DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

GENTE POBRE! GENTE POBRE EM RELAÇÃO A QUÊ?


O livro "Gente Pobre", de Fiódor Dostoiévski, foi escrito no ano de 1846 (ou 1845) quando o escritor tinha 25 (ou 24) anos de idade. Logo que o livro caiu nas mãos de Vissarion Belínski, um dos mais importantes críticos literários da Rússia, este vaticinou que um gigante da literatura Russa estava nascendo. Infelizmente o mesmo morreu em 1848 e não pode vivenciar o que previra ao ler "Gente Pobre".

A estrutura do romance é epistolar, ou seja, formado por diversas cartas trocadas entre um funcionário público chamado Makar Diévuchkin e uma costureira órfã chamada Varvara Alieksiêievna. O espaço em que o romance se passa é em um bairro pobre de São Petersburgo, onde ambos moram em pensões vizinhas.

Makar Diévuchkin é funcionário de uma repartição pública onde assume a simples função de copista. Ele é descrito como um homem de meia idade, pobre, maltrapilho, profundamente frustado com sua vida sem sucesso profissional, todavia é um homem profundamente caridoso com uma jovem órfã de pai e mãe. Esta é Varvara Alieksiêievna que teve sua vida totalmente mudada com morte precoce do pai e logo em seguida, devido a vida sofrida, a morte da mãe. Quando os pais morreram, ela foi parar na casa de Anna Fiódora, uma pensionista que sempre se aproveitava da jovem.

Muitas são as cenas impactantes descritas nas cartas sobre vidas paralelas de personagens que são descritas pelas duas personagens principais neste romance, tanto que: "O poeta Russo Nokolai Niekrássov (1821-1878) e o escritor Dmítri Grigoróvitch (1822-18990), ao terminar sua leitura, em lágrimas, saíram anunciando que havia surgido um novo Gógol e predizendo um grande futuro ao então jovem escritor" (BIANCHI apud DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 174).

Logo nas primeiras cartas, Makar Diévuchkin descreve a sua penúria social e se sente um ser sem direito até de sonhar, mas ao pensar em sua "pombinha" Varvara Alieksiêievna que ele apelida de Várienka, muda de visão, dando-se o direito de sonhar. Podemos vislumbrar esta parte por meio de uma das citações mais lindas do livro. Apesar de Makar se achar incapaz de escrever com elegância e poesia, ele consegue expressar tamanha magnitude de beleza e leveza ao mundo sofrido em que vive:

"[...] Hoje até me entreguei a sonhos bem agradáveis e meus sonhos foram o tempo todo com você, Várienka. Comparei-a com um pássaro do céu, criado para alegria dos homens e adorno da natureza. E então pensei que pessoas como nós, Várienka, que vivem sempre em meio a tribulações e sobressaltos, também deveriam invejar a felicidade despreocupada e inocente das aves do céu" (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 13).

Ambas as personagens de sentem inferiores na vida não só por estarem a margem da sociedade, mas há uma carga psicológica que os castiga sem motivos. Makar se sente inferior e responsável por suas aflições financeiras e tem um ego totalmente auto-destrutivo, tanto que em determinado momento acaba bebendo e caindo em desgraça, perdendo o seu respeito que tantos admiravam de homem pobre, porém temperante, tudo devido a pequenas calúnias maldosas de sua suposta intenção de ter uma mulher mais jovem sem ter condições financeiras e aparência para tal conquista. Todavia, Várienka intervém e o intima e se erguer e ter sua autoestima de volta. 

Varvara Alieksiêievna, apelidada por Vàrienka por Makar, em todo momento tentava justificar o fato de ter perdido a sua honra por uma manobra de injustiça arquitetada pela dona da pensão Anna Fiódora que se sentia dona de Várienka desde a morte de seus pais. E ela se culpava por não ter aprendido as lições que seu pai tinha se esforçado para que ela pudesse adquirir enquanto ele estava vivo, porém, assim como ela fazia com Makar, o mesmo a fazia se sentir forte e bela diante do mundo, independente das desventuras que acometeram sua vida. O cuidado de Makar em relação a Várienka é extraordinário e se ver que não se trata de atração sexual, porque mesmo com os diversos convites, Makar sempre se recusa a ir à casa de sua protegida com medo que seja mal interpretado.

Há diversas passagens que expressam a riqueza interior de Makar em outras partes do livro, a exemplo de quando um homem que tem por sobrenome Gorchkov vai até o seu quarto de pensão, pois eles, juntamente com outras personagens vivem praticamente amontoados neste lugar. O mesmo tem um problema na justiça e possui mulher filhos. Em um dia de desespero, Gorchkov chega até o quarto de Makar e pede uma contia de copete, ou seja, dinheiro para poder comprar comida para sua família e chama atenção para seu filho doente. Makar, olha para a figura do homem, tem um momento de crise interior, porque aquela contia pedida era a que possuía para comer no dia seguinte, porém Makar vai até a gaveta e empresta o dinheiro ao vizinho. Este o agradece do forma fervorosa. 

Depois de um tempo, Makar descreve em uma carta um fato triste, mas no início não se entende o porquê desta tristeza. Nesta carta, Gorchkov obtém a justiça que era esperada fazia muitos anos e que por muitos era desacreditada. O caso consistia no fato de que Gorchkov era um funcionário público que fora enganado e culpado por algo que não cometera, mas a verdade foi descoberta, ele ganhou a causa, pagou suas dívidas e ficou extremamente feliz por limpar sua honra. Descreve Makar para Vaárienka:

"Hoje teve um lugar em nossa apartamento um acontecimento triste, absolutamente inexplicável e inesperado. Nosso pobre Gorchkov (é preciso mencionar-lhe isto, minha filha) foi completamente absolvido. O caso acabou portanto de maneira não muito agradável a ele (...). Estava tão emocionado, coitado. Não conseguia permanecer dois minutos no mesmo lugar; pegava tudo o que lhe caía às mãos e depois tornava a largar; não parava de sorrir e de nos cumprimentar, sentava, levantava, tornava a sentar, falava sabe Deus o quê - dizia: 'A honra, a minha honra, o meu bom nome, meus filhos' - e falava de um jeito! começou a chorar. A maioria de nós também derramou umas lágrimas. Rataziáiev, pelo jeito, queria animá-lo, e disse: 'O que é a honra, meu amigo, quando não se tem o que comer; o dinheiro é mais importante, é por isso que deve agradecer a Deus!' - e ao dizê-lo deu-lhe uma palmadinha no ombro. Pareceu-me que Gorchkov se ofendeu, isto é, não que tenha manifestado descontentamento, mas lançou um olhar meio estranho para Rataziáiev e retirou a mão dele de seu ombro (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 154-155)

Infelizmente sua honra foi lavada, mas o dinheiro chegou tarde para salvar a vida de seu filho. Esta questão entre o que é mais importante: se é o dinheiro ou a honra causou um certo desencontro entre Gorchkov  e o poeta Rataziáiev morador da pensão em determinado momento, quando todos comemoram a justiça feita. Todavida, Gorchkov  volta para seu quarto com muitos convidados para comer, mas quando as pessoas saem e sua mulher vai até seu filho, acaba descobrindo que o mesmo morrera. Gorchkov  fica desconsolado e vai deitar para tentar se confortar, mas quando a mulher o busca um tempo depois, o honrado e desaventurado Gorchkov também morrera. 

Nesta resenha, foram descritas algumas passagens que chamaram atenção para a grandiosidade da percepção de Fiódor Dostoiévski enquanto escritor na figura da personagem Makar. É extraordinário ver o título da obra entrar em plena antítese com o conteúdo da obra. A Gente Pobre descrita no romance são pobres financeiramente falando, mas são imensamente ricas em humanidade e compaixão. Sendo a solidariedade uma das características que faz o coração se apertar e se emocionar, pois se não houvesse tanta dificuldade, não se perceberia tanta grandiosidade em uma alma humana desenhada por meio de orações e emoções que este livro nos transmite. Fica a dica para nós do que realmente é a verdadeira pobreza e em que consiste a riqueza. Ler "Gente Pobre" é perceber que o homem pode ser bom independente da situação, porque ser solidário e honrado é questão de escolha. O fim de Várienka e Makar não irei contar, porque quero que mergulhem na leitura deste livro para sentir estes fatos narrados de forma sucinta, mas possam sentir algo ainda mais forte que me fez chorar profundamente como a vida de um certo professor amigo de Várienka. 

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente Pobre. Tradução, posfácio e notas de Fátima Bianchi. São Paulo: Editora 34, 2009.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SONETO "OH! GUIA DO SENHOR! QUE SENHOR?"


OH! GUIA DO SENHOR! QUE SENHOR?


Perdoa-lhe, pois não sabe o que faz.
Dizendo guia do Senhor pede dinheiro,
Não importando as dores do companheiro,
Para indicar o caminho do bem é incapaz.


Verdadeiro servo não é indiferente.
Segue seu caminho querendo ser abrigo,
Guerreando em oração até por mendigo,
De Deus é mensageiro a toda gente.


Falando sobre Jesus, palavras são harmonias
Que despedaçam correntes com maestria,
Libertando o mais oprimido dos corações.


Porém, o ímpio perdido diz ignomínias,
Enganando, pregando o dinheiro, gera apatia
Afastando muitos de Deus = guia de perdições!


Por Yolanda Silva 
Escrito no dia 16 de agosto de 2015



Observação: Este soneto pode está com algumas sílabas não tão corretas, mas priorizei o conteúdo. Quem sabe com o trabalho constante, melhorarei meu antigo hábito de escrever poemas. Todavia, gostaria de dedicar esta tentativa de soneto ao meu marido Robson Barbosa da Silva, porque este foi o homem escolhido por Deus para me orientar como companheira, amiga e serva do Senhor Jesus. Não é fácil seguir a verdadeira e sublime palavra de Cristo. Nunca foi e nunca será, por isto sabemos que a porta é estreita, mas vamos perseverá, porque não há lugar melhor no mundo do que permanecer e viver ao lado de Jesus. E nesta caminhada de vida em meio a um universo que sempre tende para decadência, Deus nos dá bálsamos para nos alegrar. E que nossa alegria seja sempre o Senhor Jesus e seus princípios que produzem VIDA!


terça-feira, 1 de setembro de 2015

"MACUNAÍMA: O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER", DE MÁRIO DE ANDRADE (ARTIGO PUBLICADO NO XI CONAGES)




UMA LEITURA FREUDIANA SOBRE A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE AO DESEJO DE MORTE EM MACUNAÍMA, DE MÁRIO DE ANDRADE

Yolanda Maria da Silva
Graduada pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB
Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade - PPGLI
Professora efetiva da Secretaria de Educação do Governo do Estado da Paraíba





RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo analisar a obra Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, tendo como aporte teórico Sigmund Freud (1987; 1980). De acordo com S. Freud, o desenvolvimento da sexualidade de um indivíduo se divide em três etapas chamadas de fase oral, fase anal e, por último, a fase genital. Munidos dessas informações, observaremos esse percurso na trajetória de Macunaíma, tendo um atento olhar à intensidade da libido da personagem. A investigação deste trabalho se deve a conduta sexual desmedido de Macunaíma que, ao tentar saciá-la, constrói uma narrativa que oscila entre o primitivo e o civilizado, dando-nos uma visão panorâmica do comportamento humano no que se refere aos seus anseios sexuais, pulsão de vida e instinto de morte causado pela castração e perdas de objetos amados.

Palavras - chave: Macunaíma, libido, Sexualidade.


(Acesse o artigo pela revista online: http://www.editorarealize.com.br/revistas/generoxi/anais.php)


UMA LEITURA FREUDIANA SOBRE A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE AO DESEJO DE MORTE EM MACUNAÍMA, DE MÁRIO DE ANDRADE 


INTRODUÇÃO

            A psicanálise tem sua origem com os estudos de Josef Breuer, que praticava a hipnose no intuito de fazer com que os pacientes expurgassem as lembranças traumáticas do passado, conseguindo, por meio desse método, aliviar e até acabar com os sintomas das neuroses. Sigmund Freud parte dos conhecimentos adquiridos com o método catártico de Breuer e inicia a livre associação das lembranças dos pacientes com os sonhos dos mesmos, a partir destes sonhos, iniciava o tratamento, fazendo o paciente refletir conscientemente sobre seus traumas e repressões infantis.

            Porém, para compreendermos a teoria freudiana, é necessário entendermos que os problemas neuróticos começam desde o início da infância. Na verdade, surgem a partir do momento em que a libido é reprimida e subjugada propositadamente pelo mecanismo social de castração, assim, os sintomas neuróticos se iniciam e acompanham a vida adulta. A libido, por sua vez, é uma pulsão sexual que impele o ser humano a ativar certas zonas erógenas que lhe proporcionam prazer. Essa energia é compara por Freud a fome e tem como função perpetuar a espécie humana.

            A libido acompanha a criança desde seu nascimento, porém, devido à repressão, essa busca de prazer inerente é maculada e a criança vai escondendo seu desejo. Mas, com o desenvolvimento das fases do corpo, essa energia se fortalece. As fases do desenvolvimento da sexualidade são divididas por Freud em três fases:



Numa primeira fase, muito precoce, o erotismo oral fica em primeiro plano; uma segunda dessas organizações “pré-genitais” caracteriza-se pela predominância do sadismo e do erotismo anal; somente numa terceira parte (desenvolvida na criança apenas até a primazia do falo) é que a vida sexual passa a ser determinada pela contribuição das zonas genitais propriamente ditas (FREUD, 1980, p. 143-144).



            A zona oral, também chamada por Freud de “chuchar” se desenvolve com a amamentação da criança que toma o peito para se alimentar, mas ao estimular a cavidade bucal, tornando-a numa zona erógena de prazer. Essa atividade de mera busca de sobrevivência pela alimentação passa a ter a função de proporcionar prazer pelo próprio prazer. Então essa fase pode acompanhar a criança até a idade adulta. “O chuchar, que já aparece no lactante e pode continuar até a maturidade ou persistir por toda a vida, consiste na repetição rítmica de um contato de sucção com a boca (os lábios), do qual está excluído qualquer propósito de nutrição” (FREUD, 1980, p. 110).

Após a fase oral se inicia a fase anal que é a percepção de que, ao prender as fezes, há uma estimulação física do ânus, fazendo a criança sentir prazer sexual, estimulando a zona erógena anal. Por último, apresenta-se na criança a fase genital, que é o momento em que os órgãos sexuais estão formados e prontos para sentir a estimulação de prazer proporcionado de início pela secreção, posteriormente, pela fricção da relação sexual. É na fase genital que a criança começa a projetar o seu “desejo sexual” em um “objeto sexual” exterior, dando início à vida sexual adulta.



1. Acerca da relação sexual do indivíduo com o objeto sexual



A relação de um indivíduo com um objeto sexual é marcada pela necessidade que o ser humano sente de saciar o desejo sexual denominado de libido. Este e tão forte que podemos levá-lo, no dizer do autor, “a analogia com a pulsão de nutrição: a fome” (FREUD, 1980, p. 84). O objetivo dessa relação é a descarga dessa pulsão sexual. Para a realização desta descarga, é necessário “introduzirmos aqui dois termos: chamemos de objeto sexual a pessoa de quem provém a atração sexual, e de alvo sexual a ação para a qual a pulsão impele” (FREUD, 1980, p. 84). O alvo sexual vai do coito em si, como a contemplação do objeto sexual, supervalorizando-o. Sobre isso afirma Freud (1980, p. 93):



A mesma supervalorização irradia-se pelo campo psíquico e se manifesta como uma cegueira lógica (enfraquecendo o juízo) perante as realizações anímicas e as perfeições do objeto sexual, e também como submissão crédula aos juízos dele provenientes. Assim é que a credulidade do amor passa a ser uma fonte importante, se não a fonte originária da autoridade.





A restrição à relação sexual entre o indivíduo e objeto sexual pode acarretar certos distúrbios que vêm a complicar a harmonia da interação entre os corpos, ocasionando as perversões sexuais. Como o fetichismo, por exemplo, que “resulta dos casos em que o objeto sexual normal é substituído por outro que guarda certa relação com ele, mas que é totalmente imprópria para servir ao alvo sexual normal” (FREUD, 1980, p. 94). Essa substituição pode ocorrer por causa da impossibilidade da relação ou pode ser uma patologia que faz o indivíduo sentir prazer nessa condição “anormal”. Também inserimos nesses casos patológicos de perversão: o sadismo e o masoquismo. Nesse caso, a relação entre o indivíduo e o objeto sexual é permeada pelo prazer ligado a dor, seja o prazer de ocasionar dor, que ocorre no primeiro caso, seja o prazer de sentir dor, que consiste no segundo caso.

Quando, por algum motivo, o indivíduo perde o objeto amado, acontece o que Freud chama de luto e melancolia. “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante (FREUD, 1980, p. 142)”. Nessa condição, o mundo externo, sem o objeto amado, perde todo o interesse para o indivíduo, mas esse desinteresse não adentra no ego do mesmo. Ao contrário da melancolia, que é um estado mais problemático do ponto de vista patológico. Além dos sintomas do luto, acrescenta-se a melancolia a degradação do ego e a baixa estima do indivíduo que se anula pelo objeto perdido. “O paciente representa seu ego (...) como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende e se envilece, esperando ser expulso e punido (FREUD, 1980, p. 144). Ao que parece, na melancolia, o indivíduo injeta ao ego o objeto sexual desejado e dentro de si o destrói de forma aterradora, mesmo que isso custe sua própria sobrevivência psíquica. Não é à toa que a melancolia tem sido um dos grandes aliciadores de suicídio.



1.1. Sobre o homem primitivo: comunidade social e práticas religiosas segundo os estudos de Sigmund Freud



            De acordo com os estudos de Sigmund Freud: “A raça humana, se seguimos as autoridades no assunto, desenvolveu, no discurso das eras, três sistemas de pensamento – três grandes representações do universo: o animismo (ou mitológica), religioso e científico” (1980, p. 60). Cabe a nós, neste trabalho, determo-nos na fase animista e suas características básicas para compreendermos o caráter da personagem analisada no corpus em questão.

O animismo é a fase em que o homem primitivo está em simbiose com a natureza. Surge no momento em que o homem questiona de forma embrionária, sobre os mistérios da vida como a morte e a fúria indomável da natureza. Sobre o animismo, afirma Freud (1980, p. 60): “O animismo é um sistema de pensamento. Ele não fornece simplesmente uma explicação de um fenômeno específico, mas permite-me apreender todo o universo como uma unidade isolada de um ponto de vista único”.

Dentro do animismo, o homem usa a feitiçaria e a magia como forma de domar a natureza e as forças adversas na natureza. Em uma espécie de representação ritualística da ideia das coisas que afligem a vida cotidiana do indivíduo. Isso é o que S. Freud chama de onipotência de pensamento do homem primitivo. A lógica desse mecanismo de pensamento é que “as coisas se tornam menos importantes do que as ideias das coisas: tudo que for feito às ideias das coisas inevitavelmente acontecerá também com as coisas” (1980, p. 65). Não é à toa que essa fase também é chamada de narcisista, porque coincide com a fase em que o homem tem como objetivo principal saciar seu desejo e motiva todo sistema de pensamento e ações para a realização do mesmo. Narcisismo é a fase psíquica em que o indivíduo projeta buscar todos os desejos sexuais para si mesmo, amando a si mesmo de forma intensa, sem levar em consideração os objetos que estejam exteriores ao ego. 

                                                                                     

2. O desenvolvimento da vida sexual de Macunaíma



            Sigmund Freud, como já fora dito, defende a teoria da libido que é “uma força quantitativamente variável que poderia medir os processos e transformações ocorrentes no âmbito da excitação sexual” (FREUD, 1980, p. 133). Ao contrário do que se pensava a libido não é uma força que opera só na idade adulta, sua insurgência se inicia desde os primeiros dias de nascimento. Isso é possível porque na criança há uma dinâmica estimuladora de zonas erógenas que proporcionam prazer. Assim, o corpo da criança sendo estimulado é capaz de sentir prazer, mesmo que este seja inconsciente. S. Freud dividiu os estágios do desenvolvimento sexual da criança em oral, onde a zona erógena estimulada e a boca; a anal, onde a zona exógena estimulada e a mucosa retal e, por fim, há a faze genital (puberdade) que é o momento que os órgãos sexuais estão desenvolvidos e a psique da criança tem condições de entrar em dialética com um objeto sexual exterior.

Na obra de Mário de Andrade, percebemos esse percurso sexual descrito por Freud ao analisarmos a personagem Macunaíma que, desde criança, possui um apetite sexual sem limites e vive em função de saciar seus desejos. Por causa desse comportamento, o herói tem como característica a preguiça, a libido desenfreada, o egoísmo e o narcisismo. Logo no início da narrativa, podemos perceber o estágio oral em Macunaíma, também chamado por Freud de fase do “chuchar”, em que a criança usa “a parte dos próprios lábios, a língua ou qualquer outra parte dele que esteja ao alcance até mesmo o dedão do pé são tomados como objeto sobre o qual se exerce essa sucção” (FREUD, 1980, p. 110). Essa é a fase egoísta, narcísica e auto-erótica por excelência da criança, é esse egoísmo em função do próprio prazer é descrito pelo narrador:



Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si (sic) o incitavam a falar exclamava: _ Ai! Que preguiça!... e não dizia mais nada (...). Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de pexiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva (...). Nem bem teve seis anos deram água de chocalho pra ele e Macunaíma principiou falando como todos (ANDRADE, 1981 p. 9).



Deleitava-se na preguiça, divertia-se matando saúva, demonstrando os traços perversos da fase narcísica e animista e, sempre que era cobrado a trabalhar, dizia o dístico: “Aí que preguiça”. Só havia duas forças que eram capazes de subjugar a preguiça de Macunaíma. Mesmo com sua preguiça declarada, ele saltava quando o negócio era adquirir dinheiro e saciar sua libido precoce desenfreada.

 

[...] Vivia deitado na rede mas se si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma danava pra ganhar vintém (...). E também despertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamus diz que habitando a água-doce por lá. No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela (ANDRADE, 1981 p. 9).



Como é característico na fase oral, o primeiro objeto a ser chuchado pela criança é a própria Mãe, pois é por meio do seio materno que a zona erógena bucal e estimulada sexualmente. Além disso, também se percebe o caráter narcísico e perverso de Macunaíma em relação a sua Mãe, como podemos ver no fragmento a seguir:



Quando ia dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente  na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambóticas e dava patadas no ar (ANDRADE, 1981 p. 9).



Os sonhos, segundo S. Freud, são indicadores da vida psíquica do inconsciente, então, desde cedo se percebia as perversões e comportamentos da contra mão que seguia Macunaíma: “Então adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambóticas e dava patadas no ar” (ANDRADE, 1981 p. 9). Por isso, as mulheres nos momentos de diálogo já vaticinavam o futuro que seria trilhado pelo herói sem caráter Macunaíma: “Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que espinho de pequeno que pica, de pequeno já traz a ponta” (ANDRADE, 1981 p. 9).

O egoísmo e o narcisismo de Macunaíma vão se mostrar cada vez mais na narrativa, ao passo que sua vida sexual vai sendo descrita. Estas características se apuram na fase anal de Macunaíma, que também é desenvolvida na mesma época que a genital. Esse processo duplo ocorre devido ao ato mágico que faz Macunaíma de criança se transforma em um “príncipe lindo”, com os órgãos genitais desenvolvidos e com capacidade de já projetar catexia libidinal em um objeto exterior.

Podemos inferir isso nos pautando no universo literário, onde a fantasia e o extraordinário podem ser possíveis de acontecer, pois se trata da criação imagética de uma obra artística. Também, devemos lembrar que Macunaíma é uma personagem que representa o homem primitivo, inserido na época do pensamento animista, que por meio de atos mágicos, vários fatores naturais e físicos são transpostos em função do desejo narcisista de Macunaíma. Este, não respeita nada nem ninguém, sempre está assediando as mulheres que aparecem e, em especial, gostava de conquistar as companheiras de seu irmão Jiguê. A primeira a ser tomada por Macunaíma foi Sofará. O enredo do caso extraconjugal acontece quando o herói queria brincar na mata, mas a Mãe não pode levá-lo, então, gentilmente, Sofará se oferece para ajudar, levando o “piar” preguiçoso nas costas e lá acontece que Macunaíma de menino ingênuo, transforma-se em um príncipe lindo, que toma para si a mulher do próprio irmão. Como podemos ler a sequir: “[...] e pediu pra Sofará que o levasse até o derrame do morro lá dentro do mato, a moça fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas (...) ele botou corpo num átimo e ficou um príncipe lindo. Andavam por lá muito” (ANDRADE, 1981 p. 10).

À noite, após desfrutar da mulher do irmão, Macunaíma volta para casa já transformado em criança. Como lhe é peculiar, o “piá” volta nas costas da mulher, sem se preocupar com a condição de cansaço da companheira que desfrutou no meio do mato. No outro dia, a Mãe novamente não pôde atender ao pedido do menino e Sofará repetiu seu trabalho, dando lugar a mais um dia de aventura amorosa:



(...) Quando o botou nos carurus e sororocas da serralheira, o pequeno foi crescendo foi crescendo e virou príncipe grande lindo. Falou pra Sofará esperar um bocadinho que já voltava pra brincarem e foi no bebedouro da anta armar um laço (ANDRADE, 1981 p. 10).



No outro dia, Macunaíma pede aos irmãos uma “fibra de curauá” e levou ao “pai-de-terreiro que trançasse uma corda pra ele e assoprasse bem nela fumaça de petum” (ANDRADE, 1981 p. 10). Por esses meios, Macunaíma fez uma ótima casa, mas no momento da partilha a família decorou a parte nobre e deixou para Macunaíma as “tripas”. Esse comportamento de egoísmo da família fomentou em Macunaíma um pensamento de vingança que se expressou em um jogo perverso com Sofará e com a manipulação para que o irmão descobrisse que estava sendo traído. Na floresta, depois de brincarem normalmente, Macunaíma inicia um jogo sádico com Sofará e, de acordo com Freud, esta é a característica da fase anal. “O conceito de sadismo oscila, na linguagem corriqueira, desde uma atitude meramente ativa ou mesmo violenta para com o objeto sexual até uma satisfação exclusivamente condicionada pela sujeição e maus-tratos a ele infligidos” (FREUD, 1980, p. 97).  Sobre isso segue os fragmentos abaixo:



[...] Depois de brincarem três feitas, correram mato fora fazendo festinhas de cutucar, fizeram a das cócegas, depois se enterraram na areia, depois se queimaram com fogo de palha, isso foram muitas festinhas (...). Quando Sofará veio correndo, ele deu com o pau na cabeça dela. Fez uma brecha que a moça caiu torcendo de riso aos pés dele. Puxou-o por uma perna. Macunaíma gemia de gosto se agarrando no tronco gigante. Então a moça abocanhou o dedão do pé dele e engoliu. Macunaíma chorando de alegria tatuou o corpo dela com o sangue do pé (...). Macunaíma tomou com uma gusparada no peito, era a moça. Macunaíma principiou atirando pedras nela e quando feria, Sofará gritava de excitação tatuando o corpo dele em baixo com o sangue espirrado. Afinal uma pedra lascou o canto da boca e moeu três dentes. Ela pulou do galho e junque! tombou sentada na barriga do herói que a envolveu com o corpo todo, uivando de prazer. E brincando mais outra vez (ANDRADE, 1981 p. 11-12).



            De objeto afligindo, Sofará reage aos “carinhos perversos” de Macunaíma e inicia-se o jogo sádico e masoquista. “A designação de ‘masoquismo’ abrange todas as atitudes passivas perante a vida sexual e o objeto sexual, a mais extrema das quais parece ser o condicionamento de dor física ou anímica advinda do objeto sexual” (FREUD, 1980, p. 97). O fato de ambos estarem felizes nessa condição de agressão mútua consiste no fato de que “quem sente prazer em provocar dor no outro na relação sexual e também capaz de gozar, com prazer, de qualquer dor que possa extrair das relações sexuais” (FREUD, 1980 p. 98).

Depois de um tempo, Jiguê aparece com uma nova companheira chamada Iriqui que, novamente, é tomada por Macunaíma. Macunaíma usou a metamorfose para conquistar a bela jovem: primeiro se transformou em uma formiga para brincar com a jovem, mas Iriqui não era dada a meninices, então o herói se transforma em “urucum”, conquistando, assim, Iriqui que gostava de se pintar e usou a semente da planta para ficar bonita. Mais uma vez Macunaíma usa a esperteza e artifícios mágicos para atrair a companheira do irmão Jiguê. Como Macunaíma já era homem, porque foi transformado pela “Cotia”, acaba se tornando o companheiro de Iriqui a contragosto do irmão.

            Após a morte da Mãe, os irmãos decidem seguir viagem em direção à cidade. Os irmãos passam por uma transformação e em seguida, a próxima aventura e o encontro com Ci, a Mãe do Mato. Ao contrário das outras mulheres, Ci não se submete as artimanhas do nosso herói, por ser uma guerreira indomável. Mas com a ajuda dos irmãos, Macunaíma conquista a “cunhã” e se torna Imperador do Mato-Virgem e, também, conquista a libido de Ci. Isso coincide com que Freud diz: “a sexualidade da maioria dos varões exibe uma mescla de agressão, de inclinação a subjugar, cuja importância biológica talvez resida na necessidade de vencer a resistência do objeto sexual de outra maneira que não mediante ao ato de cortejar” (FREUD, 1980, p. 97). Sobre a conquista de Macunaíma em relação a Ci, a saber:



[...] Era Ci, Mãe do Mato. Logo viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada pelo Nhamundá. A cunha era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com jenipapo (...). O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria. Fez lança de flecha tridente enquanto Macunaíma puxava pajeú (...). O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara o rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos: - Me acudam que sinão eu mato! Me acudam que sinão eu mato!. Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape tranço os braços dela por detrás enquanto Jiguê com o murucu lhe dava uma porrada no coco. E a icabiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira. Quando ficou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato. Vieram muitas jandaias, muitas araras vermelhas tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo Imperador do Mato-Virgem (ANDRADE, 1981 p. 19-20).



            Em Ci, Macunaíma encontra a companheira perfeita e juntamente com os irmãos, seguem uma viagem a diversos lugares. Macunaíma continua com a sua ociosidade de viver na rede, enquanto a “Icabiama” saía para adquirir o sustento e guerrear. Macunaíma, à noite, tinha a função de amar Ci. A ânsia sexual da guerreira era indomável e insaciável a ponto do nosso herói não dar conta, mas as mandigas de Ci sempre faziam o herói reagir. Vê-se que Macunaíma vive em função de saciar seus desejos sexuais e os de sua esposa, conquistando até o título de Imperador do Mato-Virgem por meio da proeza sexual. Nas noites em que o herói bebia e não conseguia satisfazer Ci, a estratégia da cunha era mais radical:



Então para animá-lo Ci empregava a estratagema sublime. Buscava no mato folhagem do fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadeira no Chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma ficava que ficava um leão querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso (ANDRADE, 1981 p. 21)



O paraíso sexual de Macunaíma acaba com a ida de Ci para o céu: a morte simbólica na narrativa. Ci cai em um estado melancólico devido à morte do “piá” fruto do amor do casal. “E lá vive Ci agora nos trinques passeando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro” (ANDRADE, 1981 p. 22). Durante um longo tempo, Macunaíma fica desesperado por ter perdido à esposa que tanto amava, mas se recupera e inicia uma nova viagem.

No caminho, busca ajudar uma cunha e nessa luta perde a Muiraquitã que o faz empreitar uma nova aventura em busca da recuperação da Muiraquitã - o objeto que lembrava a “marvada” que ele tanto amou. Podemos perceber que há um fetichismo no objeto mágico. Sobre isso, afirma Sigmund Freud (1980, p. 94) que fetichismo “resulta de casos em que o objeto sexual normal é substituído por outro que guarda certa relação com ele, mas que é totalmente impróprio para servir ao alvo sexual normal”.

Para recuperar seu objeto, Macunaíma vai para a cidade grande e lá inicia uma guerra contra Vescelau Pietro Pietra, fazendo surgir, assim, novas aventuras. Macunaíma tem vários casos com as mulheres da cidade grande, mas percebe um grande estranhamento entre o comportamento das “cunhãs” da cidade e as “cunhãs” do Mato-Virgem. E seu velho hábito de conquistar as mulheres do irmão Jiguê retorna. Agora é a vez da Suzi, a “piolhenta do Jiguê”.



 2. 1. O declínio da vida sexual de Macunaíma: do luto a melancolia



Depois de reconquistar a Muiraquitã, vencendo os inimigos da cidade grande, Macunaíma volta ao lugar de origem. Porém, sente a diferença ao perceber que já não era o mesmo lugar de outrora e sentiu saudade das mulheres com quem teve suas brincadeiras sexuais.



[...] Quanta sacanagem feliz quanta cunha bonita e quanta cachiri M!... Então Macunaíma teve saudades do sucesso na taba grande paulistana. Viu todas aquelas donas de pele alvinha com quem brincava de marido e mulher, foi tão bom! (...) Então pensou muito sério na dona da muiraquitã, na briguenta, na diaba gostosa que batera tanto nele, Ci, Ah! Ci, Mãe do Mato, marvada que tornara-se inesquecível porque fizera ele dormir na rede tecida com os cabelos dela!... “Quem tem seus amores longe, passa trabalhos trianos...” parafusou. Que sardade da marvada! (ANDRADE, 1981 p. 109).



Neste fragmento, podemos perceber que sem as brincadeiras das cunhãs, Macunaíma demonstra a saudade que sente de Ci e entra em um estado de luto em relação às aventuras amorosas e a esposa perdida. Podemos entender que “o luto é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (FREUD, 1980, p. 142). Porém, neste momento, mais uma vez os sentidos do herói são atraídos por uma imagem de mulher, e sua saudade se esvai. Uma vez que um novo objeto belo conquista o desejo libidinal do mesmo. Sobre isso segue o fragmento abaixo:



[...] E Macunaíma enxergou lá no fundo uma cunha lindíssima, alvinha e padeceu de mais vontade. E a cunha lindíssima era a Uiara. Vinha chegando assim como quem não quer, com muitas danças, piscava pro herói, parecia que dizia - “Cai fora sei nhonhô moço!” e fastava com muitas danças assim como quem não quer. Deu uma vontade no herói tão imensa que alargou o corpo dele e a boca umedeceu (sic): - Mani!... Macunaíma queria a dona. Botava o dedão na água e num átimo a lagoa tornava a cobrir o rosto com as teias de ouro e prata. Macunaíma sentia o frio da água, retirava o dedão (ANDRADE, 1981 p. 129).



Macunaíma sentia o corpo de desejo estremecer com a imagem da “cunhã”, mas devido ao frio excessivo da água, regredia. Porém, Vei - a Sol – há muito tempo queria castigar o herói por ter traído e dispensado uma de suas filhas. Então, por isso, a Sol empurrou o herói para ser devorado pela bela jovem que estava na água, que na verdade era o terrível monstro Urarau. Neste momento, Macunaíma é castigado pelos seus excessos sexuais ao ser jogado nos braços do monstro sedutor que prende justamente por artifícios sexuais. Neste momento, pode-se entender Vei como assumindo o papel da repressão contra os excessos sexuais do herói, repressão que tem como função controlar os excessos da libido humana. Por isto, acaba sendo seduzido pela Uiara:



[...] Vei sabia que a moça não era moça não, era a Uiara. E a Uiara vinha chegando outra vez com muitas danças. Que boniteza que ela era!... Morena e coradinha que-nem a cara do dia e feito o dia que vive cercado de noite, ela enrolava a cara nos cabelos curtos negros como as asas da graúna. Tinha no perfil duro um narizinho tão mimoso que nem servia pra respirar. Porém como ela era só se mostrava de frente e afastava sem virar Macunaíma não via o buraco no cangote por onde a pérfida respirava. E o herói indeciso, vai-não-vai. (...) A dona ali, diz-que abrindo os braços mostrando a graça fechando os olhos molenga. Macunaíma sentiu fogo no espinhaço, estremeceu, fez pontaria, se jogou feito em cima dela, juque! Vei chorou de vitória. As lágrimas caíram na lagoa num chuveiro de ouro e de ouro. Era o pino do dia (ANDRADE, 1981 p. 130). 



Na briga com a Uiara, Macunaíma perdeu alguns tesouros adquiridos nos dias em que esteve na cidade grande, mas os tesouros mais sentidos foram os que obtêm simbologia sexual como: os cocos-da-Bahia (que substituíam os testículos) que simbolizam a fertilidade; as pernas que lhe davam mobilidade de viajar e encontrar “cunhas”; os dedões que em algumas culturas é um símbolo de sensualidade como foi defendido por Freud e, principalmente, a Muiraquitã que é o objeto que carregava toda a lembrança de Ci. Podemos ver isto no fragmento a seguir:



Quando Macunaíma voltou na praia se percebia que brigava muito lá no fundo. Ficou de bruços um tempão com a vida dependurada nos respiros fadigados, estava sagrando com mordidas pelo corpo todo, sem perna direita, sem os dedões sem os cocos-da-Bahia sem orelhas sem nariz sem nenhum dos seus tesouros (...). Macunaíma sentou numa lapa que já fora jaboti nos tempos de dantes e andou contando os tesouros perdidos em baixo d’água. E eram muitos, era uma perna de dedões, eram os cocos-da-Bahia, eram as orelhas os dois brincos feitos com a máquina patek e a máquina Smith-wesson, o nariz, todos esses tesouros... O herói pulou dando um grito que encurtou o dia. As piranhas tinham comido também o beiço dele e a muiraquitã! Ficou louco (ANDRADE, 1981 p. 130).



Para reaver seus tesouros o herói:  



Arrancou uma montanha de timbó de assacu de tingui e cunambi, todas essas plantas e envenenou pra sempre o lagoão. Todos os peixes morreram e ficaram boiando com a barriga pra cima, barrigas azuis barrigas amarelas barrigas rosadas, todas as barrigas sarapintando a face da lagoa. Era de-tardinha (...). Então Macunaíma destripou todos esses peixes, todas as piranhas e todos os botos, caqueando a muiraquitã nas barrigas. Foi uma sangueira mãe escorrendo sobre a terra e tudo ficou tinto de sangue. Era a boca-da-noite (...). Achou os dois brincos achou os dedões as orelhas os nuquiiris o nariz, todos esses tesouros e prendeu todos nos lugares deles com sapé e cola de peixe. Porém a perna e a muiraquitã não achou não. Tinham sido engolidos pelo Mostro Urarau que não morre com timbó nem pau. O sangue coalhava negro cobrindo a praia e o lagoão. E era de-noite (ANDRADE, 1981 p. 130-131).



Mesmo tendo achado alguns de seus tesouros, o mais importante Macunaíma não encontrou, a Muiraquitã, símbolo de sua amada Ci. Por causa disso, Macunaíma entra em um estado de profunda melancolia e acaba se entregando à morte. Sem as pernas para viajar em busca de “cunhãs” para brincar e sem a Muiraquitã que lembrava Ci, a vida perdeu o sentido para o herói, por isso, decide ir para o Céu, entregar-se ao que poderíamos chamar de um estado de pura ausência de emoção em vida, tornar-se “uma estrela inútil”. Assim, podemos inferir que Macunaíma acaba sendo consumido por um sentimento de melancolia:



Os traços mentais distintivos da melancolia são um desanimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade , e uma diminuição de sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar em auto-recriminação e auto-envelhecimento numa expectativa delirante de punição (FREUD, p. 143).





Sem seus tesouros Macunaíma conclui: “[...] não achava mais graça na terra... Tudo que fui fora a existência dele apesar de tantos casos tanta brincadeira tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver” (ANDRADE, 1981, p.31). Macunaíma praticamente sucumbe a sua melancolia e se entrega a morte tal qual um suicida, decidindo antes a morte do que viver sem seu objeto amado e sem as possibilidades de saciar seus desejos sexuais. Como conclui o herói: “NÃO VIM AO MUNDO PARA SER PEDRA” (ANDRADE, 1981, p. 131). 

Em linhas gerais, o homem biologicamente e antropologicamente é um ser para relação consigo mesmo, com o outro e com o mundo. A possibilidade de prazer libidinal é algo tão primordial como a necessidade básica de saciar a fome. O problema é que quando colocamos nosso desejo em primeiro lugar, denegrindo o outro, acabamos ficando sozinhos, tendo a morte como saída mais agradável para o niilismo "libidinal e existencial". É necessário entender que devemos cultivar nossa libido, mas cuidando da libido do outro, posto que o prazer só é possível na relação de um “Eu” com um “Tu”, ou de um “Eu” com todos os “Outros”, no caso de Macunaíma.  


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Mário de. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. São Paulo, Martins, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia; 1981.

COMPAGNION, Antoine. Literatura para que? Tradução de Laura Taddel Brandini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. 

FREUD, Sigmund. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre a metapsicologia e outros trabalhos (1901-1905). Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

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______. O desenvolvimento da sexualidade. Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

­­­______. Luto e melancolia. Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1980. 

______. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

______. Totem e tabu e outros trabalhos (1913-1914). Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1980. 

______. O futuro de uma ilusão. O mal estar na civilização e outros trabalhos (1927-1931). Tradução de José Octávio Aguiar Abreu. In: Obras completas. Ed. Standart Brasileiro. Vol. XXI.  Rio de Janeiro: Imago, 1997.

(Acesso pela revista online: http://www.editorarealize.com.br/revistas/generoxi/anais.php)